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sábado, 27 de junho de 2009

O Intercâmbio Cultural e o Teatro da Região Norte

Por Dani Senra

A apresentação da peça “Boxe com Palhaçada” foi resultado de um intercâmbio entre dois festivais com a mesma proposta e linguagem: Breves Cenas (AM) e Cenas Curtas (MG). Ainda em sua primeira edição, o Festival Breves Cenas conquistou o público amazonense. A iniciativa de criar um festival desse formato no Amazonas, foi da Companhia Cacos de Teatro em conjunto com a Cia. Artbrasil.
Com apenas dois anos de existência o grupo criou um festival capaz de lotar as salas de teatro, oferecer oficinas e fechar boas parcerias. O 1º Festival Breves Cenas aconteceu entre os dias 10 e 15 de março e contou com jurados de outros estados como Fernando Mencarelli. A idéia é que o festival ganhe proporção nacional e que haja sempre o intercâmbio entre os festivais de outras partes do Brasil.

Em entrevista ao Blog Cenas Curtas, Taciano Soares e Dyego Monnzaho contaram como tudo aconteceu.

Como surgiu a idéia de realizar o Festival Breves cenas?

A idéia de fazer um festival desse formato, lá na região Norte, é uma idéia que já existia antes mesmo da formação da Cia. Cacos de Teatro. Sempre conversamos muito sobre projetos e numa dessas conversas o Márcio, um dos coordenadores, falou dessa idéia de formar um festival que tivesse formato de sketch. Achamos muito interessante e os três integrantes da companhia Cacos, Márcio, Dyego e eu criamos a estrutura do projeto: Como aconteceria, perspectivas, alcance de público, a forma de como ele alcançaria artisticamente a cidade de Manaus e a região norte, que nunca havia recebido um festival desse formato, e como ele irá se projetar nos próximos anos. Então toda a concepção se dirigiu pela idéia do Marcos com estruturação da Companhia Cacos.

Foi uma parceria da Cia. cacos e Artbrasil. Como aconteceu essa parceria?

A Caixa Econômica tem um incentivo específico para festivais de teatro e dança. E a nossa companhia, apesar de ter muitas idéias e muita vontade de fazer diversas coisas, é muito nova no cenário. A Companhia Cacos tem somente dois anos e achamos que seria pouco para tentar um incentivo que é aberto nacionalmente. A companhia Artbrasil tem uma idéia de teatro parecida com a da Cia. Cacos, e deslumbramos a idéia de fazer uma parceria. A atriz e diretora Ana Claúdia Mota é, além de tudo, nossa amiga, então não tinha porque não acontecer essa parceria. Então fizemos a proposta, ela achou maravilhoso e acabou se tornando apresentadora oficial do Festival Breves Cenas. E aí sim, a Companhia Cacos e a Artbrasil juntas, desenvolveram o projeto, apresentamos a proposta para a Caixa Econômica e graças a Deus deu tudo certo.

Houve inscrição e participação de companhias de outras localidades?

Sim. O festival, a princípio, foi projetado para atender a região norte apenas. E aconteceu um fato muito curioso, no qual não esperávamos, houve interesse de grupos de outros cinco estados além da região Norte, inclusive Minas Gerais. Mas infelizmente não teve como abrir nacionalmente porque o projeto já tinha sido aprovado naquele formato. Mas a partir do ano que vem, poderemos atender todo o país.

Além das cenas houve oficinas. Elas foram abertas ao público?

Primeiramente nos queríamos que somente as pessoas que tivessem participando das cenas integrassem a oficina. Mas depois o espaço foi aberto ao público, então foi uma mescla de atores participantes das cenas e espectadores. O único pré-requisito foi que a pessoa tivesse um conhecimento mínimo de teatro para que, a oficina não tivesse um caráter tão básico já que era de curta duração, somente quatro dias.

Aconteceu alguma parceria com o governo e/ou prefeitura?

Sim, tanto a prefeitura quanto o governo. A prefeitura estava se reestruturando porque teve uma mudança do prefeito agora e a secretaria estava em transição. Então estava um pouco complicado, mas mesmo assim, quem viabilizou as passagens para virmos pra cá foi a Fundação Municipal de Cultura. E o espaço onde aconteceu o festival foi concedido pelo governo do estado que é quem gerencia a maioria dos teatros. E, juntamente com o espaço, todo a logística foi cedida através dessa parceria: estrutura, técnicos, funcionários e tudo mais. O SESC é um grande apoiador da Companhia Cacos e consequentemente foi também do Festival Breves Cenas. Cederam o espaço para os debates, oficinas e forneceu material impresso.

Como que funcionou essa parceria de vocês virem ao cenas curtas?

Foi através do Fernando Mencarelli. Ele é muito bem quisto lá e tivemos a oportunidade dele ser um dos jurados do festival. Ele lançou essa idéia, que nos já tínhamos, mas não chegamos ao ponto propô-la. Então ele deu a idéia e ai já calhou. Acho que ele ligou diretamente para o Chico Pelúcio e perguntou o que ele achava da parceria. Explicou do Breves Cenas ser muito parecido com o Cenas Curtas e que era premiativa e etc. Ai ele falou: Oh eu acho excelente a idéia, se você está falando que os meninos são bacanas e que o festival é bom, então... E aí foi perfeito. Então ficou nesse sentido, na premiação divulgamos essa surpresa, e a partir daí o pessoal da produção entrou em contato com o Galpão Cine Horto, pra gente estruturar essa parceria. E a idéia é que haja um intercâmbio, daqui pra lá, de lá pra cá. Acho bacanérrimo proporcionar essa troca dentro do Brasil que é um país tão diversificado.


O Teatro do Amazonas é o maior símbolo cultural do Estado. Mas poucas pessoas freqüentam o lugar. É verdade? Porque você acha que isso acontece? Existem projetos que viabilizam a ida das pessoas ao teatro?

É verdade. A gente tem uma dificuldade de acesso do público ao teatro e vice versa. Existem inúmeros fatores como em todo Brasil. E o que deve ser? É o gênero? A localização? O valor? É o que? A idéia? A divulgação?Não sei...
Eu acredito sim que tem espetáculo de qualidade lá, bem bacana. A gente ta viajando por outros estados e estamos vendo que realmente dá pra equiparar alguns trabalhos a título de qualidade. Há um problema de divulgação muito grande, muita gente reclama que não sabe o que ta acontecendo. Como eu te falei, a maioria dos teatros são gerenciados pelo governo do estado e ele não cuida muito bem da parte de divulgação. Não ocupa os espaços, tem muitos espaços de teatros vazios que não são abertos a temporadas e a justificativa é a falta de recurso. E quando há ocupação desses espaços pelas companhias, existe uma divulgação mínima, então é muito difícil. Mas mesmo assim a cultura de ir ao teatro não é desenvolvida em Manaus.
No Festival Breves Cenas, a gente conhecendo essa realidade, massificamos muito a divulgação e tivemos um resultado muito interessante. Porque o teatro que tem 130 lugares, em quase todos os dias do festival, chegava a uma lotação de 220 lugares, então ficou hiper lotado. Isso foi uma alegria pra gente. A gente sabe que, lógico, além do formato novo teve o fator de divulgação que foi muito importante, agente realmente massificou, eu acho que isso também ajuda. Tem muita gente que quer ir ao teatro e tudo mais.

Dyego

Eu acho que é isso. Você perguntou de projetos que viabilizam o acesso das pessoas ao teatro.
São pouquíssimos projetos, mas existem. Como é o exemplo do Projeto “No Palco” que leva para o Teatro do Amazonas, espetáculos de música na segunda feira, de teatro na terça e de dança na quarta. O acesso é gratuito, as pessoas até vão, mas a divulgação é ruim porque nem todo mundo sabe, quando que começa, porque é um projeto que não tem um período, as vezes tem em junho, as vezes é só em setembro. Então como você não constrói uma data e um histórico as pessoas ficam sem saber o que e quando está rolando.

Além desse festival que é novo. Quais outros eventos que prestigiam o teatro na região norte?

No amazonas tem o festival de Teatro da Amazônia que vai um pouco além da região norte, porque a Amazônia pega mais dois estados, um do nordeste e um do centro oeste, Mato Grosso e Maranhão. Tem festival de teatro no Pará e no Amapá, que são locais. Tem dois festivais no Acre, um estadual em agosto e o outro é nacional em janeiro. Não tenho conhecimento sobre festival de teatro no Tocantins, e Roraima acredito que não tenha. Mas Rondônia tem muitos festivais e mostras, e tem o maior Festival de Teatro de Rua da região. Que foi idéia de uma companhia chamada O Imaginário, que já está na sua terceira edição também patrocinado pela Caixa.

Quais são as expectativas para o 2º ano do Festival Breves Cenas?

As expectativas são enormes, porque graças a Deus o primeiro deu muito certo. E o segundo nós teremos o desafio de trabalhar com estrutura nacional. A idéia é manter, um sabor caseiro. Pois tem premiação, mas não tem rixa, disputa e nem energia ruim, então ocorreu tudo muito bem. O interessante é que foi uma observação feita tanto por jurados quanto pelos participantes. Então queremos aumentar o festival mantendo isso, esse gosto de uma coisa saudável e harmoniosa, dentro do possível é claro. E óbvio, aumentar a qualidade e o público principalmente. Foi uma iniciativa que deu certo então a gente precisa aproveitar esse gancho e ir para um espaço maior. Criar algo que seja novo, mas que não perca as pessoas que participaram da primeira edição e que alcance muito mais pessoas. Quem sabe nos nossos 10 anos, igual ao Festival Cenas Curtas, tenhamos um público imenso, já que na primeira edição conseguimos um número bem significante.
Tudo será ampliado, a quantidade de cenas, que foram dez, provavelmente aumentarão também. A oficina foi em dois módulos, corpo e interpretação. Então pretendemos aumentar o número, a qualidade e o estilo das oficinas. Não Trazer coisas tão simples que se encontra em qualquer lugar. Trazer coisas novas, que agreguem valor e conhecimento nas pessoas. Trabalhar também a questão do debate que foi um desfalque, lotavam o teatro à noite, mas no dia seguinte pouquíssimas pessoas iam, tem poucas pessoas interessadas em discutir teatro. É uma realidade, mas a gente quer estimular, criar algum mecanismo que estimule as pessoas a irem aos debates. Porque é interessante e importante, das pessoas ouvirem e opinar de maneira construtiva. A gente precisa ter essas coisas. Então é crescer com qualidade e não perder essa coisa do caseiro, do é nosso, não é meu e não é seu, é nosso.

Querem fazer mais alguma observação, falar alguma coisa?

A gente, quando veio a primeira vez para o sudeste com a Cia. Cacos, ouvia muito assim: como que funciona lá? Porque há um desconhecimento mútuo de como as coisas funcionam. E é legal porque a gente aos pouquinhos vai quebrando essas barreiras. A gente vê que é igual, os mesmos problemas, as mesmas dificuldades, mesmo num estado que tem lei de incentivo. No norte não existe lei de incentivo estadual nem municipal, só Rouanet e mesmo assim você sabe que, grande parte é para a região sudeste.
Mas mesmo assim a gente está encontrando, com muita dificuldade, espaços com patrocinadores como a Petrobrás, Caixa Econômica, Correios e o Sesc que é um grande fomentador de cultura no país.

Temos que reclamar menos e buscar formas paralelas de crescer, é lógico, sempre esperando que mais oportunidades apareçam e que mais possibilidades aconteçam pra que a gente possa trocar. Não só fazer na nossa cidade, mas sim trocar, é importante tanto pro conhecimento pessoal, mas também para o conhecimento de causa. O país saber o que se faz no país e colaborar. Enfim, foi excelente levar jurados de outros estados pra Manaus, já rendeu uma outra parceria que talvez no final já encontre uma outra coisa e assim vai caminhando e criando uma rede, fortalecendo o teatro no Brasil.

Notas sobre algumas das cenas mais votadas

Por Luiz Navarro

Na porta de entrada, rapazes com sacolas de plástico na mão distribuíam tomates maduros, bem maduros, a quem entrava para assistir o primeiro dia de apresentações das Cenas Curtas mais votadas durante o festival do Galpão Cine Horto, em sua décima edição. Algumas pessoas não entendiam, outras trocavam idéias e opiniões sobre a controversa cena do coletivo Conjunto Vazio, que levantou polêmicas na sala de espetáculo e inclusive neste blog. Antes do início das apresentações, uma observação importante para algum espectador desprevenido: os tomates foram distribuídos para serem utilizados na última cena e apenas na última cena.

Cheiro de incenso, tambores e flauta ambientam a platéia em uma das experiências mais excêntricas da vida do poeta Mário de Andrade: a cerimônia catimbó de fechamento de corpo. A cena é “Corpo Fechado”, dirigido por Ricardo Gomes. Os atores Alexander de Moraes e Priscilla Duarte revezam a interpretação dos vários personagens que participaram do episódio - incluindo o próprio Mário de Andrade - de forma muito dinâmica e bem-humorada. Feita a partir do relato do poeta, a montagem é bem construída, apesar de alguns elementos poderem ter sido mais bem explorados, como a presença de um homem de dread-locks vestido de mulher e tocando tambores - algo completamente inusitado.

De repente, as luzes se acendem e cinco cabeças cantam enlouquecidamente. Perguntam-se, afinal, onde estará Nick Van Drick? Assim começa a cena “5 Cabeças a Espera de Um Trem”, com direção de Byron O’Neill e Alexandre Cioletti. O ritmo acelerado do texto (divertidíssimo, ainda que propositalmente confuso) prende completamente a atenção do espectador. Como a única parte do corpo dos atores à mostra era justamente a cabeça, a expressão facial e a maquiagem ajudam muito a conquistar o público, além, é claro, das interpretações individuais, explorando muito bem os trejeitos particulares de cada ator. Inspirada no teatro do absurdo, a cena demonstra ter sido construída com bastante maturidade e merecidamente foi uma das mais votadas no festival.

Uma das cenas mais admiráveis do festival, “Dia de Prova”, da Companhia do Ator Cômico, de Curitiba, dirigida por Mauro Zanatta, surpreende o público com seus personagens infantis vestindo máscaras de crianças em uniforme de escola e professor. A primeira impressão ao encarar os personagens da cena é de não estar assistindo a uma cena de teatro, pois as máscaras transportam o espectador a outro lugar, talvez para dentro de uma tela gigante de TV, com a sensação de não estarem ali atores humanos, e sim personagens de desenho animado. E as máscaras não têm bocas, pois a cena não tem falas. Toda a dramaticidade é expressa pelo corpo e pelos gestos que tocam pela sutileza. Uma cena tão bem elaborada que foi apresentada ao público adulto, mas também poderia perfeitamente ser apresentada ao público infantil, que ficaria encantado com sua delicadeza, algo tão diferente daquilo a que está costumado: a televisão.

O improviso, a criatividade e o bom humor são as matérias primas dos palhaços baianos Danillo Novais e Yoshi Aguiar em sua crítica bem-humorada à banalidade da violência em “O Sequestro...”. Sua simplicidade e carisma arrancaram risadas, às vezes até nervosas, da platéia. As referências a outras cenas apresentadas no festival e a grande capacidade de improvisar até nos momentos de erro são as grandes sacadas da dupla.

A cena "Eu Me Vendo por Muito Menos do que Você Paga”, do Conjunto Vazio, terminou o dia de apresentações em uma espécie de anticlímax, com sua provocação esvaziada, talvez pela repetição da cena que já não trás tanta surpresa, já não pode comprar votos e nem sempre provoca questionamentos entre o público. Resta somente o prazer em arremessar tomates em alguém sentado esperando levar tomates na cara.

Confidência de um jornalista cultural que não vai ao teatro

Por Breno Procópio

Eu quase não vou ao teatro. Nos últimos quatro anos, posso dizer que assisti a uns sete ou oito espetáculos teatrais. O que não representa nada perto do número de filmes que vi, livros que li sobre os mais diversos assuntos e discos que fui catalogando e escutando com puro deleite. Escrever sobre cultura tem a ver, é claro, com gosto; mas, como manda a cartilha de todo bom jornalista cultural, pesquisar, estar aberto a todas as possibilidades artísticas, conhecer as técnicas e, principalmente, estar sempre na rua, espaço por excelência da vida e, em decorrência, da arte, é regra, que deve ser seguida.

No entanto, nada é tão ideal assim; e por um motivo ou outro, eu não ia ao teatro. Mas, eis que surgiu o Núcleo de Jornalismo Cultural do Galpão Cine Horto, uma proposta inovadora, como tantas do grupo Galpão: alunos de comunicação, jornalistas, profissionais das Ciências Sociais, Letras, Belas Artes, Filosofia, gente das mais variadas formações se encontravam todas as quintas-feiras para conhecer um pouco das teorias e técnicas da cobertura jornalística de cultura.

A última etapa do curso dizia respeito à parte prática: tratava-se da cobertura do Festival de Cenas Curtas, com produção de reportagens, entrevistas e críticas teatrais. Para mim, era a certeza de uma maratona de cenas; e, obviamente, um misto de apreensão e euforia quanto à qualidade delas. Tinha a certeza que iria ver bons trabalhos. A questão era o número de cenas ruins que estava pela frente.

Mas, para minha surpresa, logo na abertura do festival uma canção dramática de Bethânia e Cafusca chorando em profusão de lágrimas porque seu marido-palhaço havia lhe deixado. Era o “Boxe com Palhaçada”, que ganhara como a melhor cena do Festival Breves Cenas, de Manaus, e estava participando como convidado em Belo Horizonte. O público não parou de rir...

Por falar nisso, a última participação do Cenas Curtas 2009, “O Seqüestro”, de Salvador também homenageava a profissão do clown. Uma dupla de palhaços seqüestrava um bebê e se metia em inúmeras trapalhadas. Para nós, o público, um sentimento de alma lavada e a lembrança de Carlitos.

Outra surpresa foi “Dia de Prova”, de Curitiba, que usando a técnica da máscara neutra apresentou uma cena perfeita, lírica e cheia de expressividade, presente em cada movimento mínimo dos corpos. Vi ainda a cena “A Mudança”, do Cia. do Chá, um diálogo com o romance “Metamorfose”, de Franz Kafka. Na cena em ritmo de “thriller”, Gregor acorda absurdamente mudado. Mas ao contrário dos silêncios e desprezo velado da família Samsa (obra literária), surge a ironia e o deboche - com pai, mãe e irmã jogando bolinhas de naftalina para o personagem transformado em inseto.

Vendo aquelas várias cenas, senti um misto de prazer, desgosto, incômodo, tédio, incompreensão, êxtase, riso e alívio. Me surpreendi. Ri diante do improvável improviso.

Por tudo isso, talvez me pareça que o TEATRO SEJA A ARTE DO FUTURO. Mais do que as outras artes e contrariando a voz de alguns críticos que afirmam que esse mesmo teatro caiu no ostracismo, digo que, talvez, o TEATRO SEJA A ARTE MAIS NECESSÁRIA.

Neste nosso tempo de máquinas, comunicações, celulares, TVs, sites, chats, blogs, vlogs, redes, relacionamentos online, pulverização da imagem e do virtual, isso sem falar do capitalismo e individualismo exacerbados. Tempo em que as distâncias acabaram, mas prevalece o preconceito, a dificuldade de lidar com o diferente, com o Humano, tempo da não tolerância e da não-palavra. A arte teatral tem papel fundamental.

Isso porque o teatro não é nada sem o público. O teatro não é nada sem o humano. Todo espetáculo é uma doação; o ator está doando a arte que produziu e, ao mesmo tempo, doando seu corpo, seu sangue. O teatro e também a arte do presente. Cada espetáculo se transforma no momento em que é apresentado, depende do acaso, da energia entre o público e o ator; é, portanto, único. Essa urgência traz um poder muito grande para o teatro, é como se se colocasse um espelho no palco e o público se visse por inteiro.

Desse modo, mesmo naquelas cenas que não gostei vi a doação e a generosidade do ator, e não pude deixar de sentir respeito por quem estava ali, no palco do Cine Horto.

Ao Cenas Curtas mais 100 anos de vida, pela experimentação, pela possibilidade do diálogo entre o novo e o velho, pela maturidade do grupo Galpão em forjar os moldes de um festival que tem tudo para apontar os rumos de novos tempos. Meus parabéns!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Cinco cenas na Temporada das Mais Votadas


Fotos: Guto Muniz e Ronaldo Janotti

O Galpão Cine Horto divulgou neste domingo, durante uma grande Festa de Aniversário, as cinco cenas mais votadas do 10º Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. As belo-horizontinas 5 cabeças à espera de um trem, Corpo fechado e Eu me vendo por muito menos do que você paga se juntam à Dia de prova (Curitiba/PR) e O seqüestro... (Salvador/BA) para uma curta temporada no Galpão Cine Horto, entre os dias 25 e 28 de junho. Essa será a última oportunidade para o público de BH conferir as cenas que mais se destacaram na décima edição do Festival.

Seguindo o edital da 10º edição do Festival, das 16 cenas que se apresentaram ao longo do Festival quatro foram escolhidas através do voto popular, uma a cada dia, para a Temporada das Mais Votadas. Além delas, uma quinta cena, a mineira Corpo Fechado, foi eleita por uma comissão formada por Carolina Braga, Helena Mauro e Sara Rojo para a reapresentação junto às demais, no Galpão Cine Horto.


Além das cenas mais votadas, o público presente no Galpão Cine Horto no último domingo conheceu também a cena que fará parte da nova edição do projeto Cena Espetáculo. A cena belo-horizontina A mudança, criada pela Cia. do Chá, formada por alunos do CEFAR – Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, que teve direção de Francis Severino, receberá um apoio de criação e logística do Galpão Cine Horto. O grupo terá um incentivo de R$5.000,00 e a orientação dramatúrgica, ao longo do segundo semestre de 2009, do dramaturgo Luís Alberto de Abreu. O novo espetáculo do projeto tem estreia prevista para janeiro de 2010.

A 10º edição do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto encerrou sua primeira semana com enorme sucesso. Foram mais de 1.000 pessoas acompanhando as 17 cenas em quatro dias de apresentações, além dos debates d´O Dia Seguinte e da grande Festa de Aniversário, sob direção do Casa de Passagem, por onde circularam mais de 350 pessoas na noite de domingo. Confira abaixo o resultado oficial do 10º Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto.

RESULTADO 10º FESTIVAL DE CENAS CURTAS

Quinta-feira – 18/06/2009

5 cabeças à espera de um trem – 90 votos (52,32%)
Malevolência – Alguém tem que morrer – 24 votos* (13,95%)
O caminho do cemitério – 22 votos (12,79%)
Para aqueles que lavaram as mãos – 21 votos (12,20%)

*A cena ultrapassou 2 minutos e 38 segundos do tempo máximo (15min.) e foi penalizada com a perda de 10 votos.

Votos nulos: 05 + 10 (cena Malevolência) = 15 votos (8,72%)

TOTAL DE VOTOS: 172

Sexta-feira – 19/06/2009

Eu me vendo por muito menos do que você paga – 81 votos (48,21%)
Francisca – 41 votos (24,40%)
Corpo fechado – 33 votos (19,64%)
Caixinha de lembranças – 08 votos (4,76%)

Votos nulos: 05 votos (2,97%)

TOTAL DE VOTOS: 168

Sábado – 20/06/2009

Dia de prova – 73 votos (42,94%)
A mudança – 70 votos (41,17%)
Todos os Animais são iguais, mas alguns Animais são mais iguais que outros – 16 votos (9,41%)
Primavera – 10 votos (5,88%)

Votos nulos: 01 voto (0,58%)

TOTAL DE VOTOS: 170

Domingo – 21/06/2009

O seqüestro – 74 votos (36,09%)
O beijo – 65 votos*** (26,82%)
Da solidão que há em nós – 47 votos (22,92%)
Quando a energia acaba – 17 votos** (0,97%)

**A cena ultrapassou 3 minutos e 3 segundos do tempo máximo (15min.) e foi penalizada com a perda de 15 votos.
***A cena ultrapassou 2 minutos e 52 segundos do tempo máximo (15min.) e foi penalizada com a perda de 10 votos.

Votos nulos: 02 + 15 (cena Quando a energia acaba) + 10 (cena O beijo) = 27 votos (13,17%)

TOTAL DE VOTOS: 205

Confira na coluna ao lado a programação completa da TEMPORADA DAS MAIS VOTADAS!

Linguagem não-verbal e muitas risadas são os destaques do terceiro dia do Festival de Cenas Curtas


Flora Pinheiro
Larissa Souza

No terceiro dia de apresentações do 10º Festival de Cenas Curtas, uma cena se repete “Boxe com Palhaçada” e como ocorreu no primeiro dia, provoca muitas risadas na platéia. O destaque dessa cena foi a "palhaça chorona" que ao lamentar o amor perdido, arranca do público boas doses de gargalhadas. Pra completar, os expectadores são chamados para ajudar na construção de um ringue humano
e o texto ganha citações de elementos e nomes das cenas que foram apresentados nos outros dias do Festival. A técnica do improviso dominada pelos atores, extrapolou fronteiras e conquistou o público mineiro, enfim se tornou mais uma ação bem sucedida do Festival de Cenas Curtas.
A cena seguinte foi “Todos os Animais São Iguais, mas Alguns Animais São Mais Iguais que Outros”, com um clima tenso revelado através da trilha sonora e das expressões faciais dos atores. A cena dirigida pelo diretor Luiz Carlos Garrocho, pode não ter sido a que mais agradou o público, mas, em compensação, foi a que mais se arriscou. Através de elementos do teatro físico e imagens visuais, o trio de atores mostra o que haviam se comprometido a fazer, substituem a linguagem verbal e abrem a discussão de suas incertezas e medos.
As palavras também foram dispensadas pelos curitibanos da Companhia do Ator Cômico, com a cena “Dia de prova”, onde o bom e o mau na escola, foram apresentados através de máscaras, expressões gestuais e muito bom humor. Sem a linguagem verbal e facial, o entendimento fica por conta da interpretação das bem trabalhadas expressões corporais e da divertida trilha sonora, que dão o tom da apresentação. A máscara teatral é uma das bases de pesquisa da Companhia, que ao explorar mais da capacidade de interpretação de seus atores, conquista a platéia também pela criatividade. A cena, foi uma das mais aplaudidas pelo público que ,sem dúvida, se identificou com a história.
A quarta cena da noite foi “A Mudança”, produzida pelos jovens atores da Cia. do Chá, que participa pela primeira vez do Festival. O grupo formado por estudantes do curso de teatro do Palácio das Artes, revelou-se maduro e presenteou os espectadores com um texto inteligente, inspirado livremente na obra “A Metamorfose”, de Franz Kafka. A boa interpretação dos atores conseguiu se destacar da trilha sonora, que apesar de boa, estava muito alta, dificultando, em alguns momentos, o entendimento das falas. O resultado pode ser resumido nos calorosos aplausos no fim da apresentação, um sucesso.
Para fechar a noite de sábado, os mineiros de Ipatinga trouxeram para o palco a cena “Primavera”. No meio da movimentação de uma feira livre, três personagens vivem situações que os remetem às lembranças do passado. Várias primaveras são colocadas em cena, como em um flash back e suas memórias são discutidas em cima de um tapete vermelho. A técnica utilizada foi criada pelo britânico Peter Brook, carpet show, onde qualquer espaço pode virar um palco. Sem cenário, a atenção se remete exclusivamente ao texto e a interpretação dos atores, que conseguem fazer uma boa apresentação, porém sem muitas chances na disputa de melhor cena.

Leia também a cobertura dos ensaios das cenas “Todos os Animais São Iguais, mas Alguns Animais São Mais Iguais que Outros” e “A Mudança” - A Arte dos Bastidores, na seção O Que Vem Por Aí...

Últimas do Festival!

por Sandro Henrique

“Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso inseto.” - dados o personagem, o tempo, espaço e o fato em curta frase, lançadas a A metamorfose, de Franz Kafka, e suas metáforas, às quais as artes com ou sem aura sempre reportarão: afinal, a metamorfose não é apenas pensada pela arte como também nela se faz. Inspirada nesta obra, a cena do 10º Festival de Cenas Curtas escolhida para receber subsídios do Galpão Cinehorto para se desenvolver como espetáculo, “A mudança” expirou sensibilidade e capacidade de transformação de uma importante obra da literatura em uma leitura cênica feita pela inquietação de sonhos de jovens artistas mineiros. No segundo ano do projeto “Cena espetáculo” do Festival, a escolha do júri, composto por Carolina Braga, Helena Mauro e Sara Rojo, entende, assim, o despertar possível que pode passar por novas metamorfoses, e, ao contrário do monstro, se dar à mostra. Então, da sua forma, trazer à cena é revelar o que se costuma ocultar como os monstros, posto a claridade de uma manhã – que é corrente metáfora para o novo, o jovem. Serão necessárias muitas metamorfoses, e lançados os dados, disse Mallarmé, não será abolido o acaso. Mas a Cia. Do Chá entende a mudança, saberá desenvolver o lance e dar as suas formas.
Partindo das idéias de mudança, pensemos em que ordem se dá o fazer artístico neste Festival: formas em construção e reconstrução, transformações, renovações, acasos não abolidos. Partindo desses sentidos, que foram trazidos ao palco do Festival, continuemos curtindo aqui as cenas do final de semana, 20 e 21 de junho, e um pouco do que mostram despertado pelas inquietações de seus sonhos.


− Todos os Animais são iguais, mas alguns Animais são mais iguais aos outros, com direção de Luiz Carlos Garrocho, é um título verborrágico, mas a cena, ao contrário, é atravessada pela ausência de palavras, as quais somente aparecem em uma tela e por uma voz em off. Ausência esta potencializadora da inquietação das errâncias de sujeitos perdidos em um lugar indefinido, na “zona fronteiriça”, como explícita o grupo. A fronteira é paradoxo do limite e sua ausência, zona da mistura - lugar da morte? Da tela se exibem imóveis as palavras “tudo passa”, e pela repetição impressa nela provoca também a impressão do movimento. Essa falsa projeção das palavras, porém, está nas costas desses sujeitos (espectadores dentro do palco?), os quais, por sua vez, pelo olhar mostram que vêem passar... nada (seriam um espelhamento da platéia?) Nos seus bancos, são espectadores de olhares vazios, que quando se põem a andar, o fazem em círculos e repetindo certos movimentos. Que papel tem uma arma para aqueles passantes que andam sem sair do lugar? Tomando-os pela cena, será esta também um movimento em círculo, que não sai do lugar?

− A aurora das nossas vidas, que os anos não trazem mais, não é só amor, sonhos e flores. Dia de prova, da Companhia do Ator cômico, traz uma visão da infância, em um espaço emblemático dessa fase, a escola, com riso, mas o confronta com a usurpação e incompreensão do outro. Com pleno domínio do trabalho com máscaras, o figurino, iluminação, sonoplastia e cenário se somam para deixar o público entre o humor e o enternecimento diante de forças contrárias em um dia de prova de uma menina e um menino. Da mesma forma que tudo está em uma proporção maior em cena, também se pode ampliar as discussões e incômodos trazidos com delicadeza por ela. Os personagens não representam apenas alunos de uma escola, mas também a infância, com suas incoerências, diferente de uma visão idealizada. Além disso, representam também a maldade e a bondade lado a lado, mas também sua mistura na figura do professor. Podem ser vislumbradas também as provas a que se passa em qualquer dia. Uma cena simples com máscaras sem palavras conseguiu também ganhar grandes proporções, as mesmas que não olham para a criança e o aluno com desprezo, mas os amplia. A aurora aqui é da simplicidade, expressividade com pleno domínio artístico, que nossos anos atuais parecem, às vezes, não trazer mais...

− Depois de A mudança, veio Primavera, de Ipatinga. Ecoou nas três últimas cenas da noite a consciência crítica que passa a ter Gregor dessa primeira quando acorda em um dia diferente dos outros. Ele fala das mudanças de móveis feita pelos familiares, mas que “quando vemos estamos todos entulhados.” As palavras de Gregor de A mudança também precisam ser pensadas para o teatro: a inquietação por mudanças é importante, assim como empreender essa inquietação em cena, como forma de experimentação, mas esta deve ficar atenta para não incorrer em movimentações vãs, excessos de uso de recursos e objetos e até mesmo ânsia do uso do corpo e da voz em suas tantas potencialidades, para que não se acabe dando por conta de que, por fim, estamos entulhados de muitas pretensões, muitos movimentos, muitos recursos. Pode soar estranho aos outros essa consciência, como ocorre com a família de Gregor, mas é preciso também acreditar nela. Primavera, como as outras duas que a antecederam, prima pela leveza e simplicidade. O jogo será dado em um tapete vermelho rodeado por cadeiras pretas. Definido “o espaço é uma feira livre”, nele se entra para a ação: seja pelo corpo ou palavra. Não há objetos cênicos, o figurino é simples, um vestido, ou blusa branca com calça qualquer, e ainda, se alcança efeitos de luz nele: envermelhado pelo reflexo da luz branca no tapete. A ironia quanto ao “entulhamento” também se mostra na cena: com um texto com profusão de trocadilhos e prolixo em seu vocabulário, para, no entanto, narrar situações cotianas de feira, livre de muitos entulhos.

− As duas primeiras cenas da noite de domingo do Festival, 21 de junho, foram por via diferente destas últimas do dia anterior. Elas buscaram lançar mãos de várias possibilidades em suas encenações. São ricas e impressionantes, nesse sentido. Porém, se excederam no tempo de quinze minutos permitido para a cena no Festival, o que leva a perguntar se também não houve excessos nas escolhas, ou falta delas, em suas encenações. A reflexão, cuja incursão é indicada aqui, aponta os riscos das escolhas, mas entende, claro, ainda a necessidade de passar por eles, uma vez que são processos que aponta um porvir. Quando a energia acaba, criação coletiva, apresentou um ritmo frenético, com vários fragmentos e longo enredo, para o qual cumprir não falou energia. Interessada em confrontar a tecnologia e o homem moderno, foram trazidos para a cena o rádio, a TV, o telefone e o computador. Em contraposição a eles, como forma de tratar do velho e o novo, na trilha, a presença constante de música clássica. Também destacaram-se os black outs que imprimiram na cena a idéia de cortes cinematográficos e imagens externas gravadas nas ruas de BH exibidas por uma televisão, as quais completam o que ocorre no palco. Já em O beijo, de Curitiba, também apresentada como criação coletiva, houve sonoridades do microfone, do canto, da música, dos aplausos, do inglês de gravações de cursinhos de língua... e várias referências a gêneros cinematográficos e televisivos... além disso, humor com elementos, por hora, surreais. O grupo Teatro de Breque elencou vários elementos para falar de um diálogo simples e curioso: um pedido de um amigo a sua amiga para o teste de um beijo. O beijo teve gosto de aurora no teatro e desejo de criação. Nas duas cenas primeiras cenas de domingo saltam aos olhos o proveito da coletividade, mas há uma característica das cenas que precisa ser pensada e pode ter partido daí: a profusão de idéias em conjunto, e menos focos, recortes de escolhas.

− Quebra do riso, então, para uma cena livremente inspirada em “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke. Da solidão que há em nós, dirigida por João Filho: diálogos entre o eu e tu e o recorte desses para a solidão que perpassa o “nós”, cujo plural é menos para conjunto que para existências apartadas. Nesse sentido, em praticamente todo decorrer da cena, há um ator no palco e outro na platéia, o que para alguns que assistiram à cena, foi apenas um ator no palco e uma voz vinda da platéia. Deve-se salientar aqui as falas que partiram de um texto poético, e assim, difícil, pelo que apreende-se em cena, que foram articuladas com habilidade pelos atores. E como em círculo giraram os dois, o Festival teve como última cena da noite também outros palhaços, fechando seu ciclo da mesma forma que foi iniciado com o Boxe com palhaçada do grupo convidado de Manaus. Em O sequestro, de Salvador, com olhar crítico sobre a violência como palhaçada, os palhaços de Danilo Novais e Yoshi Aguiar se mostraram hábeis no gênero e atentos ao Festival retomando várias cenas como piadas. Por eles, além da inteligência do humor e domínio do arte do palhaço, foi possível ainda relembrar diversos momentos do Festival. Após os aplausos da platéia, a cena desdobrava-se em vários finais, entrecortados também pelos aplausos e acabaram revelando o desejo de não finalizar o Festival, e que fosse possível alongá-lo por mais o tempo... Esperemos, então, por mais alguns momentos com as cenas mais votadas no próximo final de semana...

Boxe com palhaçada: o clown que se fez nas ruas

Por Breno Procópio
Salve! Salve! Respeitável Público, agora com vocês o humor inebriante, a trama mais hilária, a fina flor do riso: Booooxeeeee com Palhaçada!

Clap, clap, clap, clap... A platéia aplaude com vibração, na expectativa que o espetáculo se inicie logo.

Começa a tocar uma música triste e aparece uma palhaça chorando em profusão pela partida do seu marido-palhaço. É Cafusca: palhaça valente, resolvida, rápida na língua como forte relâmpago. Ela dá de ombros para o sumiço do cujo e vai logo tratar de dar linha à vida.

De súbito, dois novos pretendentes aparecem, os palhaços Debilóide e Meiofino, loucos pelo amor de Cafusca. A trama segue com a preparação do duelo pelo coração pulsante da palhaça. Um ringue é montado com a ajuda do público e a aventura do riso e do improviso não cessa mais.


Eleita a melhor cena do Festival Breves Cenas, de Manaus, o “Boxe com Palhaçada” aceitou o convite do grupo Galpão e trouxe humor, irreverência e muito improviso para o Cenas Curtas. O grupo formado por Ariane Feitosa (Cafusca), Idelson Mouta (Debilóide) e Jean Linhares (Meiofino) realizou a abertura do festival, em duas apresentações nas noites de quinta-feira e sábado. O Compalhaçada fez mais: deu seu recado e marcou seu lugar na 10ª edição do festival mineiro.

O que o público não imagina é que a história do grupo se forjou nas ruas, do jeito mais puro e tradicional da arte popular. Os irmãos Idelson Mouta e Jean Linhares já faziam teatro profissional há quatro anos em Manaus quando conheceram Ariane Feitosa. Os três compartilhavam o prazer pelo improviso e desejavam estudar mais as técnicas de palhaço. “Naquela época, nós não tínhamos na cidade alguém que pudesse nos ensinar o clown. Então, nós aprendemos fazendo, na rua, descobrindo possibilidades com o público”, explica Idelson Mouta.

Eles se juntaram e passaram a compor a Trupe da Alegria, fazendo visitas nos hospitais da cidade para ajudar os doentes. Em 2006, o grupo conseguiu entrar em um dos projetos do governo do Amazonas, que consistia em apresentações cênicas em espaços públicos da capital. “Todos os domingos nós três íamos para o Largo de São Sebastião, bem em frente ao Teatro Amazonas, e fazíamos uma hora e meia de improvisação. Não tinha um tema definido, o público é que escolhia”, conta Idelson.

Da experiência nasceu o grupo Compalhaçada. “Queríamos criar um espetáculo de palhaços, que tivesse um triângulo amoroso. Foi quando vimos um vídeo do grupo catalão “El Tricicle”, no qual os humoristas lutavam boxe. Surgiu a ideia do duelo pelo amor de Cafusca”, relata Jean Linhares.



“Na primeira montagem que fizemos usávamos luva de boxe. Depois, substituímos a luva de boxe pela de cozinha, o calção pelo pijama. Tudo para tornar os elementos cênicos mais próximos do universo do palhaço”, conclui.

Breves Cenas & Cenas Curtas

No Festival Breves Cenas, o Compalhaçada se viu diante de alguns desafios: síntese, dramaturgia e palco. “Nós estávamos acostumados com a rua e apresentações de mais de uma hora. No festival, tivemos que reduzir a cena, avaliar os quadros mais importantes, além de aprender a improvisar no palco e em ambiente fechado”, explica Idelson Mouta; mas a avaliação, segundo ele, foi positiva “tanto que ganhamos o primeiro lugar”.

Para os atores, o festival que começou este ano em Manaus representa mais um incentivo para os grupos e o teatro do Estado. Segundo Jean Linhares, o teatro amazonense está crescendo muito e o calendário está cada vez melhor. “Agora temos em março, o Breves Cenas; em setembro, a Mostra de Teatro e em novembro, o Festival do Amazonas, que reúne grupos de toda a região norte do Brasil”.

Quando o assunto é a participação no Festival de Cenas Curtas, os atores afirmam que estão muito contentes em poder trocar experiências e conhecer uma outra realidade no fazer teatral. “Primeiramente, é uma honra estar aqui com o grupo Galpão e com tantas pessoas que respiram teatro. A arte que se faz em Minas é muito ousada, ela se propõe muito, quer ir além dos limites. Nós vamos levar isso para Manaus”, afirma Idelson Mouta.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Festival de Cenas Curtas comemora 10 anos com debates calorosos no dia seguinte à apresentação das cenas

Por Ana Paula Valois
Debate entre os atores no domingo

O Festival de Cenas Curtas sopra dez velinhas este ano com casa cheia e, no dia seguinte, com debates com os atores que elaboraram as cenas. A intenção é apresentar para os colegas as propostas e os processos de cada cena e trocar experiências de criação. O fim de semana foi intenso na Pitangui, 3613. No sábado, dia 20 de junho, apresentaram-se no Festival cinco cenas, sendo a primeira “Boxe com palhaçada”, convidada. Durante o debate no domingo o ponto central da discussão foi a importância da palavra, pois o silêncio foi marcante na noite de sábado, “Todos os Animais são iguais, mas alguns Animais são mais iguais que outros”, de Belo Horizonte e “Dia de Prova”, de Curitiba foram prova disso.

Similaridades distantes

Por Renata Botelho

Dias lotados com direito a fila de espera, manifestações calorosas da platéia, intervalo com direito a água, cerveja, refrigerante e a identificação de um iluminado entre nós por dois personagens ilustres. Acompanhei o Festival na sexta e no domingo e estas foram lembranças que para mim conseguem transmitir um pouco do clima do Cenas Curtas.

O Cenas Curtas propõe a seus participantes a oportunidade de experimentar novas linguagens e criações cênicas. Em todas as cenas percebi o esforço de cada um dos grupos em desenvolver aquela idéia de um ponto de vista pouco comum, que fugisse do óbvio.

Na sexta-feira, tive a oportunidade de conhecer a não-linearidade das lembranças de uma caixinha, presenciar um crime envolvendo uma esposa frustrada e um marido corrupto, me divertir com o encontro de um dos mestres da literatura brasileira e um ritual da religiosidade popular e a manifestação midiática de uma crítica da indústria cultural. Com tantos contextos diferentes, eu e mais alguns colegas de platéia conseguimos perceber algumas similaridades de expressão entre duas cenas.

Em “Francisca” as atrizes utilizaram um recurso de caracterização de personagens através da troca de papéis. A cena é a história de uma mulher humilhada pelo marido que decide que a única solução seria matá-lo. Em muitos momentos cada uma assume um lugar, seja do marido ou do inconsciente de Francisca. Já em “Corpo fechado”, Mário Andrade participa de uma cerimônia de catimbó, interpretado por dois atores que trocam inúmeras vezes de papel para apresentar ao público as particularidades notadas no registro do autor. Mesmo se tratando de um recurso parecido em cada cena, ele teve um propósito único. Seja para contextualizar a história e gerar uma tensão entre platéia ou dar um ar mais cômico e leve.

No domingo a semelhança da vez foi o viés que transcorreram as cenas: o relacionamento. “Quando a energia acaba” fala um pouco sobre os anseios e os desejos de pessoas, que geralmente são meros transeuntes do nosso cotidiano, em meio a uma expressão corporal bem aplicada e uma narrativa que entrelaça todas as histórias. ”O beijo” explorou a desconstrução de um espetáculo para contar a história de um casal de amigos que se apaixonam na experimentação de um beijo. “Da solidão que há entre nós” a perda de um irmão gêmeo e o reflexo da solidão em meio ao cotidiano. Já “O seqüestro” cativou a todos com a interação de dois palhaços que pretendiam realizar um seqüestro e o público do festival. Este relacionamento na cena foi fator determinante para sua fluidez. Um belo fechamento para animar o público que ainda aguardava a comemoração de mais de 10 anos de várias histórias.

Devaneios femininos

Baseada na obra de Rubem Fonseca, cena apresentada no 10º Festival de Cenas Curtas fala de opressão e de falta de esperança no amor

Por Wandra Araujo

A produção carioca Francisca, e seu intrigante jogo cênico, foi uma das quatro montagens apresentadas no 10° Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto no segundo dia de programação, sexta-feira, 19 de junho.

Uma mesa, duas cadeiras e um corpo desenhado no chão são os elementos cênicos no primeiro ato da cena. O simples cenário foi suficiente para as maquinações de Francisca, uma mulher de aproximadamente 30 anos, infeliz com o casamento – condição que serve de fio da meada para o desenrolar do enredo. A partir de sua idéia fixa de matar o companheiro, para ela um grande canalha, a história surge. “Um marido desses tem que ser morto, e não em sonho, mas na vida real”.

Em cena, duas Franciscas. Ou uma Francisca e seu pensamento. Duas atrizes que dividiam o mesmo espaço no tempo e que encarnavam a mesma personagem. Façanha típica das obras de Rubem Fonseca, da qual a cena foi adaptada. Aliás, o brutalismo, corrente literária inaugurada pelo autor, é fielmente desenvolvida na montagem. No elenco, Morena Cattoni e Tatynne Lauria fazem ‘personagens narradoras’ de uma trama onde a oralidade é o grande elemento que move a história. O tom de mistério, policialesco e intrigante, fez parecer que a produção teve bem menos de 15 minutos (tempo máximo permitido pelo Festival). Característica de contos de Rubem Fonseca, e também de boas montagens, que envolvem o público a ponto de não perceber o passar do tempo.

A atmosfera opressora do mundo em que vive a personagem é bem simulada pela meia luz e ‘palidez’ dos objetos que compõem a cena. Tudo combinando com a frieza das ações de Francisca, que não tem nenhum remorso de querer matar o marido num assassinato planejado para que se pareça um suicídio. Francisca, a viúva oprimida e assassina, ainda tem tempo de ensaiar sua versão para a morte do companheiro.

Longe de ser um crime passional, o assassinato do marido de Francisca por ela mesma é uma libertação. E, talvez, possa se enquadrar em outra categoria de crimes, a legítima defesa. Afinal, vivemos numa sociedade em que muitos indivíduos se anulam em função de outros acreditando no amor ou até mesmo em convenções sociais – tipo o casamento. Como motivação do crime, não se pode aventar outras possibilidades: como a de Francisca preferir ser viúva do que ser responsabilizada por um casamento fracassado.

Esta preocupação consigo (por parte do marido que nem mesmo mereceu um nome) não tem como reflexo apenas o egoísmo, mas também o abuso. Francisca possivelmente foi vítima de uma situação assim, de exploração e opressão. E, ao mesmo tempo, deu continuação a um ciclo de ausência de diálogos sinceros, de desamor e desesperança. De não-reconhecimento do próximo, do homem que um dia quis ter como marido.

A cena, dirigida por Diego Molina, agradou e suscitou reflexões acerca da real motivação do crime. Mas, tudo neste texto, são apenas especulações acerca do que se passa na mente de uma mulher.

domingo, 21 de junho de 2009

Cartas a Um Jovem Poeta é inspiração para o Festival de Cenas Curtas

Por Maria Luiza Mattar


Solidão
A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"





Da solidão que há em nós
é uma das cenas que será apresentada no 10º Festival de Cenas Curtas, do Galpão Cine Horto. A apresentação, criada especialmente para o evento, trata da solidão, um elemento sempre presente na sociedade contemporânea. Através da inspiração de Cartas a um jovem poeta, obra do poeta alemão Rayner Maria Rilke, a equipe composta pelo diretor João Filho, pela dramaturga Adélia Carvalho e pelos atores, Henrique Meirelles e Marco Túlio Ornellas pretendem levar o público a uma reflexão.
Henrique Meirelles, ao ler o livro, logo se identificou com as idéias do autor e procurou compartilhá-las com outras pessoas. “Quando li o livro de Rilke, senti que muito do que era falado ali coincidia com meus pensamentos”, afirma o ator. A partir daí surgiu a vontade de montar um trabalho inspirado na obra. Henrique chamou João Filho, que concordou em dirigir e Marco Túlio, em atuar. Uma coincidência está no fato de que ambos haviam tido, também, naquele momento, contato com o livro. A vontade de tratar dessa temática foi apoiada por Adélia Carvalho, que já havia escrito alguns textos em que abordava a solidão humana.
O livro Cartas a um jovem poeta é marcado pela intensidade da vivência do autor e pela simplicidade das palavras. Entre questionamentos como a criação artística, Deus e relacionamentos, há também uma reflexão sobre a grandeza da solidão, algo inelutável do ser humano. A criação dramatúrgica da cena foi inspirada a partir dos trechos das cartas dirigidas ao jovem poeta Franz Kappus, que tratam dessa solidão original e, de certa forma, positiva.
A dramaturgia da cena foi desenvolvida por meio de estímulos advindos das improvisações dos atores, que se pautaram pelo modelo do “teatro investigativo”. Quanto ao trabalho de direção, houve uma atenção especial ao jogo criativo dos atores com relação à poética do texto, às vestimentas, aos objetos, à interferência sonoro-musical e à iluminação. O diretor busca um estilo que não dê prioridade aos excessos cênicos, mas que procure descobrir a verdade interna dos personagens, colocando o ator como centro da ação dramática.
A formação e o trabalho de cada integrante apresentam muitos elementos em comum. Os atores Henrique e Marco Túlio formaram no CEFAR, Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, enquanto João Filho está se formando neste curso e também, em Teatro, na UFMG. Adélia Carvalho, que é, além de dramaturga, atriz e diretora teatral, desenvolve seu trabalho de dramaturgia em alguns espetáculos de formatura do CEFAR. Cristiano Reis, que auxilia na pesquisa corporal da cena, integra a Companhia de Dança no Palácio das Artes. Foram as semelhanças dessa equipe que ajudaram na construção da cena-espetáculo.

Novas curtas do festival




Por Sandro Henrique






“Fiat lux”, riscado o fósforo da “Caixinha de lembranças”, e houve entre trevas várias luzes. Até que um clarão estoura e foram criados “Francisca” e seu marido. Mas Francisca não manda vir a ela os passarinhos, come o ovo que o marido amassou e trama expulsá-lo do seu inferno para ganhar o paraíso. E assim foi. Baixa o santo para o “Corpo Fechado”. Mário de Andrade se faz herói sem nenhum caráter específico, brasileiro que é de todos os santos. Debord está morto. E foi dito “Eu me vendo por muito menos do que você paga”. Então vieram do alto chuva de tomates. E o homem cai. Depois veio chuva de pratas. E um homem pisou no tomate. E se deu na saída ao público o que é do público. Assim foi. Assim seja.





Aqui, curtindo o Festival, como foi dito no bloco “CURTAS DA ABERTURA DA 10ª EDIÇÃO DO FESTIVAL”, novas sobre as cenas citadas acima apresentadas no segundo dia, 19 de junho, do décimo festival.







Do palito de fósforo, do isqueiro, da lanterna, da vela, dos refletores: as luzes da primeira cena da noite de sexta-feira partiram de diversas fontes. Em suas diversas formas, as luzes de “Caixinha de lembrança” revelam o papel da iluminação integrado aos outros elementos cênicos de forma contundente. Para repensá-lo em cena, é possível partir de outros sentidos correntes da própria palavra, às vezes esquecidos: aquele usado para falar do sagrado, ou quando se tem uma idéia, conhecimento novo, ou lembrança. A cena dirigida por Tião Vieira apropriou-se claramente deste último. Em “Caixinha de lembranças”, a luz se faz entre trevas do cenário, como momentos de fulgor, em que se vislumbra bonecos ou atores que desaparecem e reaparecem como instantes fragmentados. As “lembranças”, assim, se dão por essas luzes, como breves iluminações da memória. Também os escuros do palco mostram os pontos obscuros dela. Se o palco é também uma caixa preta, a cena faz dele, então, esta caixinha da memória, das lembranças e esquecimentos, e insere nele várias outras caixinhas: um mise en abyme. Dessa forma, a memória: rede de compartimentos abertos que continuamente se reorganizam, ou se ampliam pelo movimento das caixas. Dentro delas: bonecos de todas as formas e tipos. Estão eles compondo sujeitos dos compartimentos da memória? O que lhes traz vida? Como podem ganhar o aspecto mórbido e enternecedor simultaneamente? Essas perguntas são resolvidas cenicamente. Vale, porém, apontar que há muitas quebras de ritmo da cena, que não se revelam interesse do seu conjunto. O texto também é pretensioso, não pelas frases oraculares, dos quais se faz, mas pela própria elaboração delas, o que acaba por ilustrar uma “vã filosofia”, a qual citam, uma de suas referências, por sinal, muito fácil, e, por isso mesmo, armadilha que demanda mais cuidado para não ser armada.


Das trevas da cena anterior ao choque de uma luz forte que, instantaneamente, provoca cegueira. O caráter ambíguo deste primeiro instante permanece, de outra forma, em “Francisca”: a morte, o assassinato, tema que aborda, não costumam ser associados à claridade, pelo contrário. Mas, às claras, Francisca, desdobrada em duas atrizes, recurso que tem sido recorrente atualmente e que ocorrerá também na cena seguinte, conta seus sofrimentos com o marido e o descreve, além das palavras, também com o corpo. Enquanto uma narra, a outra interpreta, segundo sua visão, o infame marido. As mulheres, tendo a platéia como cúmplice, tramam o assassinato dele: tanto no sentido de fazer intriga ao elaborarem seus planos, e também na articulação da fala, no sentido de tramar como enredar, o que é possibilitado pela presença de narrações em cena. O crime é tratado com a frieza da luz branca sobre elas. Neste momento, elas não o incorporam mais, ilustram o arrastar do corpo do marido até a janela em que será lançado com o arrastar de uma cadeira: agora o marido é apenas um objeto a ser descartado. Vários tipos textuais se desdobraram nas falas das Franciscas: as listas de remédios e nomes de paraísos fiscais, dissertações sobre o direito de matá-lo, relatos da péssima vida conjugal. Por fim, também inserem outra cena dentro da que se fazia, a qual é guiada por essas falas de diversos gêneros, ao ensaiarem diante do espelho o relato sobre a morte do marido. O que é significativo numa cena que tem como base uma narração feita pelas personagens ao público, como questionamento desta base, já que soubemos do caso pelo relato das mulheres, são elas mesmas personagens e narradoras em cena que ensaiam de modo canastrão, por fim, o choro fácil de “quando se está feliz”, diante do espelho. Vale salientar que a cena é ágil, seu ritmo tem a claridade da sua iluminação, mas deixa, porém, um gosto de teatro de passos marcados, não por inabilidade das atrizes ou direção, mas no sentido de plena confiança das próprias escolhas em que o risco, como perigo, parece não ser considerado da mesma forma que o questionamento feito na cena final. Pelo contrário, como tudo parece riscado, marcado, talvez mesmo porque o crime de Francisca pareça um crime perfeito, acaba sendo esse o risco que incorre a cena: a de não permitir suspeitas sobre si mesma.

Como foi apontado anteriormente, a belohorizontina cena “Corpo fechado” lançou mão dos mesmos recursos da carioca que a antecedeu: dois atores interpretam o mesmo personagem e o uso da narrativa dirigida à platéia. Imediato déjà vu que, se não é motivo para precipitado julgamento, já incita discussões. A recorrência é fenômeno a que se deve atentar por provocar questionamentos quanto à formação de um gênero, ou estilo. Porém, pode indicar também uma conformação de um modelo a ser seguido. O que é digno de nota aqui é apenas ponderar o perigo da reafirmação do uso de certas estruturas e recursos como certeza e porto seguro de uma bem-sucedida encenação. As cenas comentadas aqui são bem-sucedidas, e não é o fato de serem ou não que deve ser questionado, mas suas certezas que podem se tornar embriões de paradigmas de um contexto, mas também conformações de modelos: discussão adequada para um festival como este.





- O desdobramento do Mario de Andrade de “Corpo fechado” principia, porém, quando há necessidade de outros personagens. É destaque da cena seu texto, no cuidado de pesquisa sobre Mário de Andrade e sua obra e a importância destes em suas relações com a cultura erudita e a popular brasileira, a elite e a margem, misturas que foram trazidas para a encenação. Os desdobramentos de Mário, então, talvez, também possam ser lidos como outra forma de dar corpo à polivalência de um sujeito como o escritor. Contracenam também, no sentido da mistura, “sinceridade e charlatanice”, como indica a sinopse da cena no Programa do Festival, ou em termos de características da cena: a poeticidade e o riso, a presença constante da fala e preocupação com o uso do corpo. Também como a cena carioca há uma forte convicção no próprio trabalho, que, ao invés de trazer-lhe o caráter da maturidade, pode levar à leitura desta cena como um corpo fechado em si mesmo, em que se convoca apenas as forças de Oxalá – que em termos greco-romanos são apolíneas, ordenadoras – se esquecendo daquelas que os trabalhos fazem, sabiamente, questão de invocar logo em seus inícios: as forças de Exu – próximas das dionisíacas - que aportam no caos, na desestabilização de certezas.





- {É Debord que está sentado no palco com seu incômodo olhar? - perguntam aqueles que estiveram na platéia da edição anterior do Festival de Cenas Curtas. Não, a sinopse do programa do festival diz que “Esperando Debord” falhou e que agora é “preciso enterrá-lo”. Como o silêncio é poderoso! A platéia está incomodada com o ator mudo parado no palco. Tem-se agora tomates à mão e pode-se lançá-los contra o incômodo homem que ocupa o palco. Que belo espetáculo as diversas direções e intensidades dos tomates sendo lançados de diversos pontos da platéia! De onde partirá o próximo? Qual será a mão capaz de atirar o primeiro tomate acreditando que não tem o desejo de fazer o espetáculo que não lhe foi oferecido a assistir? “Pegue o seu e divirta-se” - interpela uma voz em off. Que queda perfeita irrompida do nada! Grande corte na expectiva de que a cena seria a mesma do ano passado... - Faz-se aqui crítica? Isso é criticar?- Que trilha ótima! O uso das projeções sintoniza-se com a confluência de recursos da contemporaneidade... Não, não é possível levar essa cena a sério demais...mas que poder imagético e sonoro esta chuva de pratinhas! Isso! Tema político! Crítica da sociedade de consumo e comércio de arte! Ouve-se “Não há possibilidade de desenvolvimento da condição humana sem desenvolvimento material!” O ser humano vendido consume o produto e é também um. “Quem quer dinheiro?” - Quem não quer? - Não, não “eu não me vendo por muito menos do que você paga”! Eu não! Eu compro. Eu... “Compramos seu voto” Será que eu vendo o meu? Não, se estão criticando o poder da compra eu não posso me vender! Não serei eu um vendido? Absurdo comprarem os votos num Festival? Mas quem os vende não terá aderido à cena, entrado também na performance, creditando a ela o reconhecimento de se está inserido num jogo de lucro? Despojando-se de hipocrisia? Será que eu vendo...? Pelo menos, após os minutos do grupo (?) “Conjunto vazio”, pelo menos os meus bolsos não sairão assim...}

Quatro cenas e uma noite intensa

Por Brígida Alvim

Aqui? Aqui onde? Tudo? Tudo o que? Questões simples e ao mesmo tempo complexas dão início a um diálogo constante e ininterrupto. Gente conversando? Não, são bonecas e bonecos, ursos e palhaços - alguns até nos pareceram familiares. Uma canção na caixinha de música acalma os ânimos. Caixotes pendurados por cordas e barbantes são habitats dos pequenos personagens. Um jogo de luz e penumbra permite observá-los. A estética de Caixinha de surpresas não pretende adoçar, pois os bonecos e mimos já estão velhos e desgastados. E nos lançam a pergunta: nossos brinquedos e desejos da infância, onde foram parar? Da mesma forma, esquecemos dos ideais históricos da humanidade, pensamentos filosóficos que propuseram grandes mudanças e, no entanto, ficaram para trás. Nossa incrível capacidade de esquecer as coisas... Infância, nostalgia, reflexões e questionamentos. “Por que já não dizemos nada? Porque não podemos dizer nada”. Estamos na era da tecnologia, nos socializando por meio do celular e da internet, talvez brinquedos e antigos sonhos já não importam. Será que seria essa a resposta? O que é tudo, onde é onde? “Paz e amor!” - um grito – e apagam-se as luzes para entrar a próxima cena.
“Qualquer mulher já pensou em matar o marido!” Para Francisca, o que no início era um devaneio, tornou-se uma determinação real. O humor caracteriza a linha narrativa da cena carioca. Apesar do tema de morte, intrínseco numa relação de amor e ódio, a cena é leve e divertida. A dramaturgia se sustenta principalmente na linguagem, irônica e sarcástica. Duas mulheres se revezam na interpretação do casal, Francisca e o marido. A encenação é dinâmica e envolvente. “É fácil chorar se a pessoa está muito feliz”, de fato consumado, justifica a protagonista, surpreendendo a plateia.
A cena seguinte foi Corpo Fechado. Mário de Andrade, um dos artistas percussores do modernismo no Brasil, é o protagonista que relata a experiência vivida em uma de suas viagens ao Nordeste para aprofundar-se no estudo de culturas regionais. Uma mesa com forro branco e velas, uma cadeira à frente e, nela, o personagem principal se dispõe a participar do “ritual para fechar o corpo”, em cerimônia do catimbó. Um misto entre dança, canto, poesia, diálogos e movimentos compõe o episódio cômico-cênico, num ambiente sinestésico. Percussionistas embalam o misticismo da cena e o odor de incenso e arruda extrapola do palco. No entanto, por falar em extrapolação, em alguns momentos o humor é forçado além da medida. A expressão corporal, embora bem situada na narrativa, exibe esforço exaltado em fazer rir, o que compromete a qualidade da cena.
Finalmente, Eu me vendo por muito menos do que você paga fechou a noite teatral com provocações inusitadas. Passividade é o que se pensa de um sujeito inerte frente aos ataques de pessoas zombadoras e agressivas que lhe atiram tomates; mas o Conjunto Vazio é capaz de contrariar esse conceito inicial. O alvo, um rapaz franzino, parece frágil e indefeso. Triste, por hora inabalável. De repente, exibe um sorriso sarcástico e triunfal. Pudera, pois, ao contrário do que se imagina, é ele que está manipulando quem está a lhe atacar. O espectador, passando a compor a “massa”, torna-se personagem ativo e também passivo, ao fazer aquilo que é comandado no palco, seja por meio de olhar provocativo ou de vozes impositivas transmitidas em recurso audiovisual. “Jogue e se divirta!” é dito, e os tomates são atirados pelos “manipulados”, maioria da plateia. Essa reação previsível do público é o “pulo do gato”, o sustentáculo da cena.

sábado, 20 de junho de 2009

Por de trás do detrás

Por Marcelo Ernesto


A fila na porta do Galpão Cine Horto já denunciava mais uma noite de sucesso de público do 10º Festival de Cenas Curtas. Lá dentro no camarim, os atores já se concentravam para o grande momento: a hora de entrar no palco. São 15 minutos, mas a ansiedade e dedicação são dignas de horas de espetáculo. Cada um a sua maneira vai preparando o corpo e alma que daí a alguns minutos vão viver outras e intensas emoções. “Mesmo já tendo apresentado várias vezes o espetáculo, na hora sempre dá um nervosismo”, contou Rafaela Kênia, integrante do grupo Caixa 4, que apresentou a cena “Caixinha de Surpresas”, a primeira da noite.

Os minutos vão passando e a ansiedade vai se misturando à tensão. As luzes ficam menos intensas para não interferir no trabalho de montagem e preparação do cenário e deixam o ambiente mais introspectivo para os atores. Momentos de profundo silêncio são intercalados com risos e um abraço coletivo. Alguém desavisado que passe pelo local pode achar que se trata de uma oração, mas os risos fazem com que esta impressão seja logo descartada. Pulos, longos e profundos suspiros, troca de olhares, pra quem vê toda essa movimentação é como se tudo já fosse parte da interpretação do espetáculo.

O barulho da platéia ao fundo serve de trilha sonora. “São quantas horas? 20h50!” O entra e sai dos técnicos denuncia que a infinita espera está próxima do fim. Atrás das cortinas gestos e sinais de confirmação das marcações. Tudo deve sair perfeito. Afinal, a mostra é competitiva. O anúncio do vídeo que conta a história dos 10 anos do Festival de Cenas Curtas faz aumentar os pulos, alongamentos e repetições do texto em voz baixa, que a essa altura, mais parece um mantra. Já são 21h16. “Essa espera me deixa mais tensa”, afirmou Larissa Metzker, já prestes a ocupar seu lugar no cenário. Enfim, chegou o momento!

No palco, as atores colocam todo trabalho e sensibilidade em cena. “Hoje é uma celebração”, comemorou Tião Vieira, ator e diretor de “Caixinha de Lembranças”. Os 15 minutos passam muito rápido e todos já estão de volta ao camarim. Agora o semblante é outro, de alívio, sensação de dever cumprido. De acordo com Vieira, este momento com tudo que ele representa é o que dá prazer. “O gostoso é o processo, são todas as pessoas que abraçam o projeto”, confessa. O momento é de relaxar e avaliar a apresentação sobre a ótica de quem sabe o que e em que momento determinada coisa deveria acontecer. Nisso não cabe o público participar, faz parte do processo criativo e de evolução da peça. Os fortes e longos suspiros, dessa vez, são de comemoração. “Agora tudo tranqüilo”, exclamou Larissa.

Outra equipe que trabalha muito e sente bem esse momento antes de cada cena ser apresentada são os técnicos. Cenário, luz e toda movimentação que rola atrás das cortinas antes de cada apresentação é feita com muito cuidado e também correria. Tudo tem que estar perfeito para que o trabalho dos artistas aconteça da melhor maneira. E essa expectativa de que nada dê errado, une artistas e técnicos.

Irreverência marca o segundo dia do Cenas Curtas

Por Marcelo Ernesto

Um convite a revirar as lembranças e tratar os medos interiores, muitas vezes, esquecidos na memória e que podem, a qualquer momento, provocar delírios internos. Com essa temática a cena “Caixinha de Lembranças”, do Grupo Caixa 4, abriu a segunda noite do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto. Com um cenário repleto de caixotes e bonecos que dialogavam com um ser humano voltado para dentro de si, a cena utilizou de recursos mais reflexivos para tratar o assunto. Efeitos de luz e fogo trouxeram uma atmosfera introspectiva à cena.

E quem nunca desejou do fundo do coração matar alguém? Francisca, uma mulher que se percebe humilhada pelo marido tem esta vontade. A cena “Francisca” propiciou à platéia momentos de possível perplexidade e momentos de humor. A montagem carioca usou de simplicidade no cenário e apostou no desempenho das duas atrizes que seguraram a cena de maneira performática.

A terceira apresentação da noite “Corpo Fechado”, trouxe Mário de Andrade como participante de uma cerimônia com crendices e muito humor. Os efeitos sonoros e a interpretação dos atores deixaram a platéia bem à vontade para gargalhar e se impressionar com a cerimônia do Catimbó.

Para encerrar a noite, uma provocação interativa e chocante. Os atores da cena “Eu Me Vendo Por Muito Menos do que Você Paga”, do Conjunto Vazio, intimaram a participação da platéia com distribuição de tomates que serviram de “arma” a serem arremessadas nos personagens durante a apresentação. Além da participação efetiva do público outros elementos como projeções de imagens das pessoas que assistiam a cena, e dos próprios atores, serviram de cenário para as performances que variaram de um banho de moedas a um homem completamente nu atravessando o palco, aproximando a cena do formato de uma instalação. O resultado funcionou muito bem!

Máscara neutra para além do bem e do mau

Por Breno Procópio

Sala de aula. O professor tímido e sério pede silêncio, é hora de começar a prova. De um lado o menino arteiro, esperto, pronto para dar o bote. Do outro, a garota estudiosa, compenetrada, “caxias”. Ao começar o teste, cada um reage como pode, até porque dentro da sala de aula, muita coisa pode acontecer...

Esta é a trama da cena “Dia da Prova”, que será apresentada pela Companhia do Ator Cômica, de Curitiba, neste sábado no Festival de Cenas Curtas. Pela segunda vez no palco do Galpão Cine Horto, a companhia utiliza a técnica da máscara neutra e da improvisação física como elemento principal de suas montagens. Segundo Edran Mariano, ator da Companhia e produtor da cena, a máscara teatral serve principalmente para o treinamento dos atores. “A função da máscara é isolar a voz e a expressão facial, que são os dois principais meios de interpretação. Ao usar a máscara quem está no palco precisa explorar de forma mais profunda a expressão do corpo, precisa ampliar a compreensão física”, explica.

A cena “Dia da Prova” foi retirada do espetáculo “Contas Diárias”, de 2005, produzida pela Companhia do Ator Cômico a partir dos estudos da máscara teatral. Nessa montagem, o grupo desenvolveu enquanto dramaturgia a linguagem não verbal, por meio de dramas vividos pelas personagens-máscaras. “Nós percebemos que todo mundo tem alguma conta para pagar diariamente. Seja com a família, ou na escola, ou no trabalho. Foi assim que nasceu o espetáculo”, conta Edran Moreno.

Em 2006, o grupo participou pela primeira vez do Festival do Cenas Curtas com “Milho aos Pombos”, eleita pelo júri popular como a melhor cena daquele ano. Retirada também de “Contas Diárias”, a cena contava a história de um casal de velhinhos que saía para passear todos os dias na praça para alimentar os pombos. Ao mesmo tempo, eles precisavam cuidar da sua própria sobrevivência. Por isso, eles escolhiam o pombo mais gordo que seria cozido e servido no jantar.

De acordo com Edran Moreno, diferentemente da cena de 2006 que explorava a expressão física da terceira idade, “Dia da Prova” faz uma junção entre o adulto e a criança para discutir a questão do bom e do mau. “Estamos falando da metáfora escolar, já que todos os dias estamos em prova. E é na sala de aula que encontramos a bondade e a maldade em sua formação”.

Leia também a entrevista com a atriz Karina Pereira, da Companhia Ator Cômico, que vai participar pela terceira vez do Cenas Curtas.

Dia de prova Curitiba/PR
Direção: Mauro Zanatta
Dramaturgia: Companhia do Ator Cômico
Elenco: Camila Jorge, Edran Mariano, Karina Pereira



Eu me vendo por muito menos do que você paga: Artaud reloaded



Por Mónica Herrera

Algumas descobertas da segunda noite:

- o Conjunto Vazio não se vende, o público do Galpão sim;

- os tomates podres ainda têm capacidade de atingir distancias interessantes apesar do seu escasso peso;

- o público do teatro independente tem muita violência reprimida.

Suspeitas ainda questionáveis:

- os grupos anti-instituições já não jogam molotovs nas instituições mais comerciais, agora estão detonando aos “supostos” “independentes”?

Sem entender:

- porque todo mundo parecia achar que estava comprando quando estava se vendendo?

Confirmações:

- não ver na mera originalidade, ou na originalidade vazia, além de simpatizar com a irreverência, algo que motive.